É sabido que pelo menos 5% dos
pacientes hospitalizados adquirem uma infecção que não tinham. Tais infecções
hospitalares aumentam a taxa de mortalidade. Nas Unidades de Terapia Intensiva (UTI), as
infecções são cinco a dez vezes mais freqüentes do que nas outras enfermarias do
hospital, pois os pacientes têm monitoramento cardiovascular, cateteres vesicais e
intravasculares.
JH Fagon e cols., médicos da UTI do Hospital Bichat, de Paris, hospital universitário e terciário, estudaram o papel da pneumonia na evolução de 1978 pacientes, consecutivos, internados.
Houve dificuldade em se fazer o diagnóstico,
pois como os internados estavam com ventilação mecânica (entubados), o diagnóstico de
pneumonia surgiu quando havia discrepância nos registros. Além disso, verificou-se que
inúmeras doenças graves evoluem para pneumonia; entretanto, para efeito desse trabalho,
foram consideradas como adquiridas.
O diagnóstico de pneumonia foi feito quando havia um infiltrado pulmonar persistente e secreção traqueal purulenta. O paciente era submetido a uma broncoscopia com aspiração de lavado broncoalveolar. Este, por sua vez, era examinado citologicamente e, se 5% das células tinham bactérias, era feito o diagnóstico de pneumonia. A identificação do agente bacteriológico era realizado pela cultura, considerando-se infecção o crescimento de dez colônias por ml. O mesmo critério era usado para urina.
Dos 1978 pacientes estudados, 542 (27,4%) faleceram nas primeiras 48 horas. Os autores compararam as características de 1436 pacientes que sobreviveram (grupo A),em relação aos 524 pacientes que faleceram (grupo B).
No grupo A a idade média era de 56 anos, sendo 66,4% homens; 29,9% estavam em pós-operatório; 10,9% apresentaram pneumonia na UTI; 6,5% tiveram bacteremia e 12,7% tiveram infecção urinária, todas adquiridas na UTI.
No grupo B a média de idade era 61,4 anos, sendo
63,3% homens; 44,3% estavam em pós-operatório; durante a permanência na UTI, 31,7%
adquiriram pneumonia, 23,8% adquiriram bacteremia e 17,2%, infecção urinária.
De acordo com o índice que mede a gravidade do paciente - APACHE II (Acute Physiology and Chronic Health Evolution), o grupo A apresentou em média 17,4% e, o grupo B, 26,1%.
O gupo A era formado por pacientes com câncer (3,0%), AIDS (2,2%), septicemia (15,2%) e choque séptico (4,2%). No grupo B os pacientes apresentavam câncer (5,0%), AIDS (2,2%), septicemia (27,5%) e choque séptico (19,0%).
No grupo A havia 17,1% de pacientes operados do coração e, no grupo B, 19,7%.
Os autores concluíram que independente da gravidade do caso dos pacientes internados na UTI, a pneumonia que surgiu em 328 pacientes (16,6%) causou taxa de mortalidade de 52,4%.
A bacteremia adquirida no hospital aumenta a probabilidade de morte em 2,51%; a pneumonia adquirida aumenta 2,08% a probabilidade de morte na UTI, em 48 horas. (JAMA, 1996; 275:866-9)